Fiquei honrado em ser destaque na edição de Verão de 2026 da Guitarist, publicada pela Guitar Society News, em um artigo de Brigitt Martin sobre meu trabalho artístico e acadêmico na Universidade de Minnesota. A matéria aborda minha pesquisa de doutorado sobre a música brasileira para além do cânone tradicional centrado no Rio de Janeiro, meu interesse em conectar o violão clássico a discussões culturais contemporâneas e meus esforços para destacar vozes brasileiras sub-representadas — incluindo tradições indígenas, regionais e periféricas. O artigo também reflete minha crença de que a música clássica precisa permanecer culturalmente relevante ao dialogar com as histórias, identidades e públicos do presente.
Guitar Society News | Guitarist Verão 2026
Alvaro Henrique e a Busca por Relevância
Por Brigitt Martin
Legenda da foto:
Alvaro Henrique é um estudante de doutorado brasileiro na Universidade de Minnesota.
Em março passado, o indicado ao Oscar Timothée Chalamet virou manchete ao declarar que “ninguém se importa” com as artes clássicas, especificamente o balé e a ópera. Naturalmente, a declaração superficial de Chalamet foi rapidamente contestada na mídia por uma série de bailarinas e divas da ópera indignadas. Mas muito antes dessa controvérsia primaveril, a questão da relevância das artes clássicas já ocupava os pensamentos de Alvaro Henrique.
Henrique é estudante de doutorado na Universidade de Minnesota, onde estuda violão clássico com a Dra. Maja Radovanlija. Ele está em um afastamento de quatro anos de seu cargo como professor de violão em um conservatório de Brasília, capital do Brasil desde sua criação planejada nos anos 1960. Como pesquisador e músico, Henrique afirma que seu mantra é “evitar, a todo custo, provar que a música clássica é irrelevante”.
Ele acredita que uma forma de a música clássica aumentar sua relevância para o público atual é utilizá-la como veículo para comunicar histórias culturalmente importantes do presente e inspirar mudanças.
“George Floyd aconteceu aqui mesmo em Minneapolis. Por que não existem composições sobre aquele momento histórico tão importante, testemunhado com espanto pelo mundo inteiro?!”, exclama com frustração.
Henrique afirma que, em seus anos mais jovens, sua trajetória musical deixava evidente seu compromisso pessoal com o ativismo — ou com o uso da arte para promover transformação social — mas hoje ele se sente menos movido pela chamada “artivismo”.
“É por isso que algumas das minhas primeiras encomendas tinham títulos como Que Todos os Ditadores Caiam”, comenta sorrindo. Outra de suas primeiras encomendas, Brasília 50, de Jorge Antunes, incorpora referências a eventos históricos, políticos e culturais marcantes ligados à cidade desde sua inauguração.
Citação destacada:
Henrique afirma que seu mantra é “evitar, a todo custo, provar que a música clássica é irrelevante”.
Mesmo deixando o artivismo de lado, mas ainda guiado por esse mantra, Henrique direciona seus estudos de doutorado para a relevância musical de sua cidade natal, Brasília. Seu objetivo é revelar um som regional próprio da capital, de forma semelhante à maneira como o Rio de Janeiro é associado ao samba e à bossa nova.
Ele explica: “Como ouvinte, eu adoro samba e bossa nova, mas, como músico profissional, as pessoas me questionariam se eu tocasse isso. Tocando esses estilos, eu nunca seria visto como o legítimo equivalente de um músico do Rio.”
Henrique propõe que grande parte da música clássica brasileira mais reconhecida internacionalmente mistura os sons das três principais matrizes populacionais do país: indígena, negra e europeia. Com pesar, ele também acredita que o último grande compositor brasileiro a levar com sucesso esse repertório multicultural ao cenário internacional foi Heitor Villa-Lobos, nas décadas de 1930 e 1940.
“Nenhum compositor realmente trouxe atenção para a música indígena brasileira desde Villa-Lobos, há 80 ou 90 anos. Existem mais de 400 nações indígenas no Brasil e muitos compositores ativos dentro e fora do Rio, mas ninguém fora do Brasil sabe nada sobre eles”, exclama com indignação.
Henrique afirma que passou a enxergar a música clássica como “uma forma de discurso, e não um ideal”. Por isso, está aberto a apresentar outras ideias — frequentemente associadas ao rock ou ao jazz — por meio de suas composições, performances e encomendas. Quando participou do concerto Jazz & Fingerstyle da MGS em fevereiro, por exemplo, seu repertório incluiu interpretações clássicas de temas de Star Wars, uma versão de uma música do Metallica, além de peças tradicionais do repertório clássico e obras encomendadas por ele.
Atualmente, ele possui seis encomendas em seu repertório pessoal, para as quais teve o direito da primeira gravação, e espera ampliar esse número no futuro. Neste ano, colaborou com o indígena brasileiro Zandhio Huku, que forneceu sua canção de rock Wawái para uma releitura de Henrique para violão solo.
Por meio de pesquisa, parcerias e encomendas, Henrique espera um dia revelar qual pode ser o som regional de Brasília e ajudar a tornar a música do Brasil — especialmente a de Brasília — conhecida e relevante para o mundo.
Fontes: Entrevista; Wikipedia; alvarohenrique.com.
