Na semana passada falei da prática deliberada, que é “nome científico” da forma de estudar música melhor.

A prática deliberada tem três características muito importantes:

  1. possui metas para permitir medir o progresso;
  2. limita a quantidade de informação a ser aprendida;
  3. prevê consequências diferentes caso o músico acerte ou erre.

Vamos falar brevemente de cada uma delas:

Embora a palavra “meta” seja muito comum num ambiente nada poético, nada musical, nada artístico, nada divertido, o fato é que ser um intérprete musical é ser meio poeta e meio atleta. Pense essa meta como o lado atleta​ do instrumentista. Metas te permitem medir seu progresso. Quando um corredor treina para “correr rápido” é difícil acompanhar ou verificar seu progresso. Já quando ele treina pra correr 100m em 12s, tudo muda. Incluir metas de estudo vai te permitir verificar e acompanhar seu progresso. Metas de estudo para intérpretes musicais costumam incluir o tamanho do trecho, a velocidade em bpm, e um limite tolerável de erros, como “primeira página do Concierto de Aranjuez a 60 bpm com no máximo 2 erros”.

E aqui a principal resistência a usar metas é a velocidade. Temos uma ferramenta que há 200 anos auxilia intérpretes musicais de todo o mundo, o metrônomo, que hoje é grátis e está nos nossos smartphones – quando não está embutida em afinadores e todo tipo de traquitana eletrônica. Mas, por algum motivo, ainda tem gente que acha que “comigo é diferente” e teima em não usar o metrônomo. Claro, gênios da música existem. Eles são reconhecíveis já com uns 12 anos. Se você tem mais de 16 anos e nunca foi considerado um gênio da música, você não é diferente. Você precisa usar o metrônomo todos os dias. Todos os dias mesmo.

Com relação à quantidade de informação, nosso cérebro tem limites. Respeitar os limites do nosso cérebro é garantia que iremos aprender tudo que queremos. Os limites do cérebro são horizontais (quantidade de informação a ser aprendida num mesmo segundo) e verticais (quantidade de informação a ser aprendida numa longa sessão de estudo). Para operar dentro do limite horizontal, é preciso tocar mais lento e menos notas (especialmente pianistas, harpistas, violonistas). Para operar dentro do limite vertical, é preciso fazer sessões de estudo com pausas entre elas. E, não se preocupe, o cérebro “zipa” as informações, e o que te exigia muito do seu cérebro passa a exigir cada vez menos, permitindo subir a velocidade e aumentar a quantidade de notas.

Por fim, o acerto e o erro devem levar a consequências diferentes. De preferência, um prêmio ao acertar e uma investigação do porquê o erro aconteceu (já escrevi sobre o erro em https://alvarohenrique.com/pt/2020/04/13/errar-e-parte-do-processo-de-aprender/​). No mínimo, prêmio pro acerto e/ou uma punição pro erro, como seguir em frente no acerto e tentar novamente a mesma meta com o erro. Mas coisas diferentes precisam acontecer.

Nesta terça, 5/5, às 17h, estarei falando deste assunto ao vivo. Irei experimentar pela primeira vez um aplicativo que permite transmitir ao vivo tanto pelo YouTube quanto pelo Facebook ao mesmo tempo. Caso não dê certo, vou pro YouTube. Pra receber o aviso, se inscreva no canal em http://www.youtube.com/subscription_center?add_user=alvaroguitar

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