D. A. T. A. O. – As jóias mágicas da interpretação musical

 

Enquanto escrevo esse texto para meu colega e ex-aluno Reinaldo Toledo, passa nos cinemas um filme sobre um vilão que quer juntar cinco jóias para dominar o universo. Todos os intérpretes musicais deveriam iniciar uma busca pelas suas cinco jóias mágicas, as jóias D. A. T. A. O., que permitem dominar a expressividade musical.

 

A jóia da Dinâmica é a que controla a intensidade de cada som. Mais que apenas tocar ora piano, ora forte, ela também lida com crescendos, decrescendos, e outras variações. É a mais poderosa no planejamento de interpretações expressivas.

 

A jóia da Agógica é a segunda mais poderosa, e controla aonde os eventos sonoros são colocados na linha do tempo. É a que lida com acelerandos, ritardandos, fermatas, respirações, tocar metronomicamente, entre outros. Por vezes, pode ser mais poderosa que a Dinâmica, como em peças melancólicas.

 

A jóia do Timbre é muito querida por vários músicos, mas é a mais fraca a ouvidos do público. Pouca variação de timbre consegue ser captada por leigos, e uma parte ainda menor consegue comunicar contraste, surpresa, e emoção forte o suficiente para mexer com os sentimentos do público.

 

A jóia da Articulação é a que controla como cada evento sonoro junta com o anterior e o seguinte, portanto, falamos de legato, campanella e as várias nuances de staccato. Normalmente, é muito forte, mas ainda menos poderosa que a dinâmica ou a agógica. Em repertório de pouca variação de qualquer uma destas características, como o repertório barroco em instrumentos de época, ela é especialmente poderosa. 

 

A última das cinco jóias é a da ornamentação. É a que embeleza as notas, podendo ser os famosos ornamentos (mordentes, trinados), bem como qualquer outro embelezamento individual, como vibratos, arpejos, harmônicos, cadências. Essa jóia é a mais delicada de domar, pois há situações em que ela pode ser usada com poder máximo – uma cadência de concerto, por exemplo -, e situações em que ela não pode ser usada de forma alguma – por exemplo, tocando um estudo com forte viés técnico. Das cinco jóias da interpretação musical é a mais mágica, a mais imprevisível e a que mais exige maturidade para seu uso. 

 

Com o domínio das cinco jóias, é possível construir interpretações expressivas com controle e previsibilidade. Uma vez que a principal função de um intérprete musical é transmitir as emoções das composições, há formas imprevisíveis e incontroláveis de planejar como fazê-lo: imaginar cenas e histórias, evocar sentimentos específicos, pensar em cores, entre outras. Embora ajudem, o que exatamente significa tocar feliz? Ou como um cavalo árabe no deserto? Tudo isso implica em decisões sobre Dinâmica, Agógica, Timbre, Articulação e Ornamentação (D. A. T. A. O) e que, dependendo do estado de espírito do intérprete, podem mudar. Tocar como um passeio no bosque com seu amor num momento de muita felicidade é diferente da mesma imagem durante um divórcio. Mas as decisões sobre D. A. T. A. O. são sempre as mesmas, em qualquer situação. Um trecho em crescendo, acelerando, metálico, staccato curto e com vibrato na última nota sempre significará a mesma coisa após uma boa noite de sono ou ainda sofrendo em função da diferença de fuso horário ao tocar no exterior. 

 

Esse é o principal motivo de usar D. A. T. A. O., as jóias da interpretação musical, sempre: poder tocar da forma mais expressiva até em circunstâncias não-ideais. Você vai querer soar o seu melhor numa apresentação em outros país, mesmo sob jet lag, ou numa apresentação importante que ocorre num dia em que um problema sério na sua vida pessoal aconteceu. Usar D. A. T. A. O. permite isso.

 

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