Algumas músicas representam a beleza compacta, ao alcance da mão. Nada contra a beleza em larga escala, como grandes edifícios, mas é preciso valorizar também a beleza em miniatura. Lágrima é uma dessas composições. Uma das razões de sua beleza reside em sua bela melodia. Mas gostaria de ressaltar outras, menos aparentes.

Um dos clichês da música ocidental é o uso dos modos maior e menor para ajudar a transmitir emoções. O modo maior (como em dó maior) é mais adequado a transmitir alegria, enquanto o modo menor, a tristeza. Bastaria usar as notas de um dos modos adequados para facilmente passar a emoção que se almeja. Mas Francisco Tárrega, em Lágrima, subverte esse lugar-comum. A música tem duas partes diferentes (a primeira é repetida ao final, portanto, a composição é em forma A-B-A). A parte A, a primeira é triste, enquanto a B é alegre. Enquanto a maioria preferiria a facilidade de escrever a A em modo menor e a B em modo maior, Tárrega faz justamente o contrário, usando o modo maior numa melodia triste e o modo menor numa melodia alegre.

Sempre que faço um comentário um pouco mais técnico sobre uma obra (como a do segundo parágrafo), perguntam-me se os leigos ouvem isso também ou se apenas quem tem uma boa educação musical o fazem. É verdade que há aspectos de uma composição que até mesmo quem tem uma boa formação musical não consegue captar (basta não estar muito concentrado), mas coisas tão estruturais, como uma seção inteira ser num modo diferente do que é associado à emoção transmitida, qualquer um ouve. A diferença entre o leigo e o musicólogo é que este consegue dissertar sobre o tema com profundidade e esmiuçando cada ponto, enquanto o primeiro sabe que tem “alguma coisa diferente aí”, apenas não consegue (re)conhecer o que é, e a razão.

Outra beleza reside na generosidade do compositor em escrever uma música com sofisticação, requintes e até mesmo um desafio no domínio da linguagem musical acessível a violonistas que ainda estão dando os primeiros passos no instrumento. Com raras exceções, como o piano, um dos principais problemas que ainda hoje os vários instrumentos musicais enfrentam é a falta de repertório de qualidade da primeira aula até o primeiro recital. Ao longo do caminho, infelizmente, um estudante de música precisa lidar com muita música ruim, mas que desenvolve algum aspecto técnico necessário para sua evolução e poder estar cada vez mais próximo da exigência que “o grande repertório” impõe. Acredito que esse é um dos fatores que contribui para que pessoas repletas de entusiasmo nas primeiras aulas acabem desistindo de tocar um instrumento. Se mais compositores seguissem o exemplo de Tárrega, estudar um instrumento musical seria uma experiência muito mais agradável.

Há outros motivos pelos quais considero Lágrima, de Francisco Tárrega, uma obra-prima em miniatura. Mas esses dois já bastariam, e não creio ser necessário recorrer ao nível da minúncia de um texto musicológico para ser capaz de convencer alguém disso. Basta ouvir a música. Quem ouve pode até não ser capaz de dizer o porquê, mas consegue captar que essa música simples, de poucos segundos, tem um tempero diferente.

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